É disso que eu gosto
Quando criança nós almoçávamos e jantávamos todos juntos, minha mãe cozinhava bem e estava tudo maravilhoso. Acho que o primeiro contato consciente e sério (sério?) que tive com o alimento que ingeria foi quando achei um livro de receitas que tinha lá um boizinho todo demarcado. Na primeira oportunidade de colocar à prova meus conhecimentos, perguntei pra minha mãe que parte era aquela que estava no meu prato. Ela disse que era o rabo e eu me recusei a comer. Até então eu comia a rabada que ela fazia e era a coisa melhor do mundo com aquela batata fumegando no prato. Pois bem, aos dez anos, quando meus pais se separaram, meu irmão mais velho ficou responsável por cozinhar. O máximo que eu fazia era secar a louça a muito contra gosto, porque eu odiava ter que secar louça (eu ainda odeio). E num dia de cara feia, meu irmão me desafiou: - Na sua idade eu já entrava na cozinha! Ao que eu respondi: - Ah, mas entrar eu já entro. Ele fez cara de poucos amigos e não riu da piada. Vocês sabem que uma criança com dez anos não gosta de ser desafiada (e daí se eu ainda sou uma criança de dez anos que não gosta de ser desafiada?) Daí em diante eu passei a olhar o que e como ele fazia comida, até chegar o dia em que me arrisquei. Eu realmente não saberia dizer o que fiz primeiro na vida, porque faz tempo... E tem o fato de eu já ter feito um bolo horrível lá pelos meus oitos anos, então, pelo jeito não deve ter ficado tão bom assim. Meu irmão seguiu seu rumo e meu irmão do meio cozinhava muito mal (desculpe, Emer, mas você cozinha mal até hoje). Então a tarefa de cozinhar, na ausência da minha madrasta (que cozinha divinamente), era minha. E, veja, qualquer ser humano comum se contenta com arroz, feijão e um bife. Só que meu pai é vegetariano desde os dezoito anos. Me vi tendo que pensar em algo diferente a cada refeição, porque além de vegetariano ele também é uma criança: tem que chamar muito a atenção e o espírito tem que estar muito de bem com o mundo pra ele comer. Mais tarde, quando fui morar só, passei muitos dias comendo bolacha e tomando iogurte, porque eu não achava jeito nem horário de comprar o primeiro botijão de gás da minha vida. E eu fui, enfim, descobrindo que cozinhar é algo bom pra mim. Funciona como uma terapia e eu passaria horas na cozinha se pudesse. Adoro receber meus amigos, preparar algo diferente e viciei em sites e blogs culinários. Eu erro uma receita, mudo, tento de novo, desisto de alguns sabores e sempre tem um prato pelo qual eu sou lembrada e que vira motivo de piada. Não ligo, eu também faço piada. Também tem aquele que o povo sempre pede pra eu fazer. Gosto do ritual de escolher os ingredientes, de sentir o perfume de alho fritando no azeite, ficar namorando e falando com o bolo enquanto ele assa (sim, eu falo com a comida)... Eu assumo, eu amo cozinhar. Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas eu só estou cozinhando, oras! Em tempo: meu irmão, o carrasco que me fez começar a cozinhar aos dez anos, se profissionalizou no ramo e eu só como lula se é ele quem prepara. Agora, rabo... Rabo eu não como nem fodendo.
Escrito por Cris às 22h01
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Un Dernier Verre (Pour la Route)
Come sit at the table Under October's able skies Once we'd seen eye to eye I'd known that I'd pass you by, and I tried The bells chime Seven times Completed at nine The world moves slower, I find No, but I Learned of time By your hands And in shallow waters' end I learned not to swim, but to lie I'll wait for now 'Til it's ready to burn out I insist on doubts We're already lying on the glass The glass Beirut
Escrito por Cris às 11h28
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